Vivemos tão compelidos a ter opiniões acerca de tudo que nos rodeia (e de o que nos é distante também), que deixamos de perceber o valor do ócio, do 'não fazer nada', da simples contemplação desinteressada.
Por que temos que encontrar sentido em todos estímulos a que somos submetidos? Porque é nossa obrigação classificar e catalogar o mundo que nos cerca, porque não podemos optar pelo "não-saber"?
Eu acredito num mundo mais despojado e acredito que a poluição visual e todo esse ruído das avenidas da vida fazem um mal tremendo. Eu acredito numa realidade diferente em que nos preocupamos mais com o que nos diz respeito e com o que nos concerne; em que encontramos e não criamos o sentido das coisas.
Na 8ª série, minha turma fez um quadro para a disciplina de Português. Na época, achei idiota fazer isso numa aula de Português, mas hoje entendo melhor toda a relação da linguagem e a expressão artística. Enclausuramento trata exatamente disso, do jeito que o mundo traça nosso horizonte e emoldura nosso pensar. O meio do quadro, já que pintei por último, foi alvo de muitas sugestões, e por isso foi bem pensado. É nessa mancha feia que tá a questão. Nesse nada que tá tudo.
A mensagem do vídeo - desprezando qualquer analogia à selvageria a priori de animais fofinhos - é exatamente essa, de que algumas coisas simplesmente não tem mensagem, não tem sentido, não tem porquê de ser.
Fica aqui meu Mestre, que me fez pensar sobre tudo isso, Alberto Caeiro com o poema XXXIX do livro "O Guardador de Rebanhos" (1911-1912).
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

alberto caeiro, o Fernando Pessoa zen buddista!
ResponderExcluirrecomendo "O espirito do zen" de Allan Watts, se quiser entender melhor o mestre dos poetas.
Baita post! Gostei :)
ResponderExcluirAcho que a busca por sentindo é uma constante em todos. Será que esse tipo de visão, a la caiero, não seria também outro sentido atribuído por nós mesmos?! Bom, sei lá.
Curti o blog, o ritmo e as idéias.
abraço,
gustavo.
Nossa, que lavagem no meu coração. Justamente isso peroni, com certeza tudo isso.
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